Justificativa e Objetivos

JUSTIFICATIVA

O desenho sempre esteve presente na história humana. É anterior a escrita, que do próprio desenho se originou. As primeiras manifestações datam de 40 mil a. C. (Gomes, 1996). Das paredes das cavernas às telas tablets da era digital, o risco nunca saiu de moda e da mão.

O que talvez tenha saído de moda é a capacidade humana de não depender da máquina. Segundo Regal, “sem o receio de dramatizar demasiado tal cenário, é razoável considerar-se que, hoje, quem cria não é mais o traço criador, mas a técnica, travestida de tecnologia, que assume seu lugar. Hardwares e softwares, ditos amigáveis, sedutores que são, reivindicam o comando sem a menor cerimônia. Sem bater à porta, piscam-nos o olho, autorizadas por um pensamento dominante sobretudo ente jovens aprendizes do ofício” (Regal in: Ferreira, Bregatto e Kother, 2008).

Na sociedade do pós-humano, a produção arquitetônica parece estar sendo prejudicada. A criatividade, a percepção visual e a capacidade de abstração são cada vez mais influenciadas pelas ferramentas computacionais, que de certa forma limitam tais habilidades a um conjunto de comandos. Na análise precisa sobre esse processo, Regal cita um dos mais renomados professores de projeto da América Latina: “o desenho em CAD obriga a uma precisão prematura, fixa dados incertos e converte em verdades aquilo que se terá que adaptar nos passos seguintes do processo” (Martinez, 2004).

O desenho à mão livre é um veículo prodigioso no desenvolvimento da criatividade, da nossa capacidade de percepção aguçada e da capacidade de abstração, habilidades fundamentais para exercer a profissão de arquiteto. A definição de criatividade aqui aplicada se refere à capacidade de reorganizar elementos, recombinar as variáveis e atender as demandas de cada projeto.

A percepção aguçada nos auxilia a entender o espaço, captar detalhes e interpretar os efeitos gerados. No entanto, como aponta Rudolf Arnheim, “temos negligenciado o dom de aprender as coisas através de nossos sentidos” (2005) e precisamos despertar essa capacidade. O arquiteto precisa saber ver e o desenho potencializa esse treino.

A capacidade de abstração permite fragmentar o todo, separar os elementos, selecionar partes para recombiná-las na nova síntese.

A arquiteta Zaha Hadid – paradigmática da modernidade e das novas tecnologias – em entrevista à revista inglesa AD (nº 12, dez. 2000) possui opinião semelhante. Na ocasião, os entrevistadores ao chegarem ao seu estúdio, depararam-se com a arquiteta riscando um novo projeto. Espantados, perguntaram a Zaha se ela ainda usava “lápis” na concepção de suas obras higt-tech. Espantada com a pergunta, responde: arquitetura é coisa de lápis e papel, o computador é para cálculos e apresentação. A concepção é à mão livre.

 

OBJETIVOS DA DISCIPLINA

 

O desenho como apresentação das nossas propostas arquitetônicas é apenas parte desse amplo processo de criação. A disciplina de Gráfica 2 estará particularmente interessada em permitir que o aluno desenvolva habilidades que o auxilie no processo de criação de propostas arquitetônicas, e usará o desenho à mão livre como veículo para isso.

Nesse sentido, o curso se propõe a apresentar boa base de informações práticas que permita avanços significativos no processo de elaboração de desenhos à mão-livre, esboços e croquis, em especial aqueles de motivação arquitetônica, e qualifique o aluno de arquitetura no desenvolvimento e na apresentação de seus estudos e projetos.

A elaboração de croquis arquitetônicos ainda é vista equivocadamente como uma tarefa que necessita talento inato. O curso procura apresentar caminhos de desmistificação dessas aparentes dificuldades. O talento inato, ainda que considerado superado pela maioria dos docentes, ainda se fixa no imaginário dos alunos. Bases teóricas mais sólidas, como as que esta disciplina se propõe a fornecer, poderiam auxiliar muito no aprendizado daqueles que apresentam maior dificuldade, afastando-se a crença de que a habilidade para desenhar seja muito difícil de ser adquirida.

Como bem colocou o arquiteto contemporâneo Italiano Carlos Scarpa “desenho por que quero ver” (Scarpa in: Golveia, 1996).

ESTRUTURA E CONTEÚDO DAS AULAS

As aulas serão divididas em cinco etapas. As primeiras três apresentam os fundamentos do desenho. As duas etapas finais buscam aprimorar a técnica. Uma breve introdução à teoria do desenho está prevista para a primeira etapa. Em todas as etapas serão será estimulado à qualificação do repertório de exemplos e o desenvolvimento de exercícios que abordam os temas discutidos. Para fins didáticos, os exercícios propostos nas etapas iniciais, procuram reduzir o grau de complexidade, facilitando sua execução e enfatizando o ponto em discussão. A partir da 5º etapa, os desenhos passam a ser realizados do começo ao fim, exercitando a reunião dos fundamentos e enfatizando o acabamento dos desenhos. Os tópicos estruturais da disciplina são:

  1. Introdução – aula 1;
  2. Traço – aulas 1, 2 e 3;
  3. Capacidade de Abstração – aulas  4,5,6;
  4. Percepção Visual – aulas 7, 8 e 9;
  5. Aprimoramento – aulas 10, 11 e 12;
  6. Finalização – aulas  13-17.

texto elaborado por Adriana Portella e Glauco Pachalski

 

BIBLIOGRAFIA  complementar

ARANHA, Carmen Sylvia G. Exercícios do olhar: conhecimento e visualidade. São Paulo: Editora UNESP; Rio de Janeiro: FUNARTE, 2008.

ARNHEIM, Rudolf. Arte e percepção visual: uma psicologia da visão criadora: nova versão. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005.

Idem. Intuição e Intelecto na Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

ARTIGAS, Vilanova. Caminhos da arquitetura. São Paulo: Casac & Naify, 1999.

BAHAMÓN, Alejandro. Sketch houses. Barcelona: LOFTpublications, 2008.

BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2005.

IDEM (org.), Arte/educação contemporâneo: consonâncias internacionais. São Paulo: Ed. Cortez, 2005.

IDEM, Inquietações e mudanças no ensino da arte. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2007.

IDEM, Arte-educação no Brasil. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2006.

BUORO, Anamelia Bueno e COSTA, Bia. Por uma construção do olhar na formação do professor. In: Oliveira, Marilda de Oliveira. Arte educação e cultura. Santa Maria: Editora UFSM, 2007.

BUORO, Anamelia Bueno. Olhos que pintam: a leitura da imagem e o ensino da arte / 2º edição. São Paulo: Educ / FAPESP / Cortez, 2003.

CAPRA, Fritjof. O Tao da Física: um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental. São Paulo: Cultrix, 2006.

CIANCHI, Marco. Leonardo: the Anatomy. Firenze: Giunti Gruppo Editoriale, 1998.

CÔRREA, Ayrton Dutra. Processo Criativo: considerações básicas. In: CÔRREA, Ayrton Dutra (org.). Ensino das artes visuais: mapeando o processo criativo. Santa Maria: Ed. da UFSM, 2008.

DONDIS, Donis A. Sintaxe da linguagem visual. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

DERDYK, Edith. Desenho ao Vivo. In: DERDYK, Edith (org.).  Disegno, Desenho. Desígnio. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2007.

EDWARDS, Betty. Desenhando com o lado direito do cérebro. Edição revisada e ampliada. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

NETO, Euclides Guimarães. Desenho 2 de arquiteto. Belo Horizonte: AP Cultural, 2007.

FANUCCI, Francisco e FERRAZ, Marcelo. Brasil Arquitetura/ apresentação João da Gama Figueiras Lima, Max Risselada; ensaios e análise de projetos Cecília Rodrigues dos Santos, Vasco Caldeira; comentários e depoimentos dos autores. São Paulo: Cosac Naify, 2005.

FERRAZ, Marcelo. Desenho e projeto. In: DERDYK, Edith (org.).  Disegno, Desenho. Desígnio. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2007.

FERREIRA, Mario dos Santos, BREGATTO, Paulo Ricardo e KOTHER Maria Beatriz Medeiros (org.). Arquitetura e Urbanismo: Posturas, Tendências e Reflexões, volume dois. Porto Alegre: Livraria do Arquiteto editora, 2008.

FUSARI, Maria Felisminda de Rezende e Ferraz, Maria Heloísa C. de T. Arte na educação escolar.  São Paulo: ed. Cortez, 2001.

GOMES, Luiz Vidal Negreiros. Desenhismo, 2ª ed. Santa Maria: Ed. da Universidade Federal de Santa Maria, 1996.

GOMES, Luiz Vidal Negreiros e STEINER, Ana Amélia. Debuxo. Santa Maria: Ed. da Universidade Federal de Santa Maria, 1997.

GOUVEIA, Anna Paula Silva. O Croqui do Arquiteto como Objeto Artístico. Revista do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAUUSP, Nº 6. São Paulo: dezembro 1996.

JULIÁN, Fernando e ALBARRACÍN, Jesús. Desenho para designers industriais. Lisboa: Editora Estampa, 2005.

LEGGITT, Jim. Desenho de arquitetura: técnicas e atalhos que usam tecnologia.  Porto Alegre: Bookman, 2004.

LIZÁRRAGA, Antonio e PASSOS, Maria José Spiteri Tavolaro. Havia uma linha esperando por mim: conversas com Lizárraga. In: DERDYK, Edith (org.).  Disegno, Desenho. Desígnio. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2007.

MARTÍNEZ, Alfonso Corona. Ensaio sobre o projeto. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2000.

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